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SIN FRONTERAS: LEITURAS E REESCRITAS NAS LITERATURAS DE LÍNGUA ESPANHOLA CONTEMPORÂNEA

SIN FRONTERAS: LEITURAS E REESCRITAS NAS LITERATURAS DE LÍNGUA ESPANHOLA CONTEMPORÂNEA

Quando você pensa em literaturas de língua espanhola, o que vem à sua mente?

Essa é uma pergunta complexa se observarmos suas diferentes nuances: para alguém, pode ser a literatura dos clássicos espanhois atemporais, como Dom Quixote ou A celestina, tão bem divulgados, discutidos e lidos por centenas de anos e milhares de pessoas ao redor do mundo. Para outros, pode ser um mergulho nas páginas de obras inesquecíveis hispano-americanas como Cem anos de solidão ou A casa dos espíritos, que delinearam a trajetória de leitores por onde quer que fossem publicados. Ainda há aqueles que dirão que tais menções são boas, mas insuficientes para contemplar o universo da literatura de língua espanhola. Neste último grupo, encaixa-se o organizador deste livro.

Ao pensar em literaturas de língua espanhola, entendo que há a abertura de caminhos que nos levarão a discussões de dimensões estratosféricas, já que a quantidade (e a qualidade!) das obras literárias produzidas nos vinte e um países que possuem a língua espanhola como oficial é imensa e não é possível haver ser humano capaz de conhecê-la em sua integralidade. Como classificar uma literatura tão diversa e plural? Como unificar uma escrita que perpassa séculos, pensamentos, ideologias, temas, culturas e territórios? Torna-se impossível!

Assim, surgiu a proposta de organização deste livro: não delimitar fronteiras, de qualquer natureza, para que a literatura escrita em língua espanhola alcance diferentes leitores e os mais variados níveis de discussão. Pensar na eliminação das fronteiras é refletir sobre os parâmetros impostos para uma produção artística chegar até um determinado público. Desse modo, apagar tais fronteiras causa uma aproximação, entre leitor e escritor, entre críticos e público, por um bem comum: ler literatura de língua espanhola!

Como sabemos bem, a literatura de língua espanhola é um território claramente destacado pela sua pluralidade histórica, cultural, estética e política, dando-nos a possibilidade de expandir nossos olhares, saindo de uma perspectiva homogênea. Como uma produção vasta, que atravessa continentes e diminui distâncias, a produção literária em língua espanhola se correlaciona com a diversidade e com debates amplos. Unida por contextos que se destacam pela constante transformação, essa literatura se faz valer de suas prerrogativas de escrita e reescrita para seguir circulando, experimentando e se proliferando pelo mundo todo.

Isto posto, os textos reunidos neste livro partem do mesmo princípio de extinguir tais fronteiras e estabelecer diálogos. Assim, este e-bookteve como objetivo principal reunir estudos que explorassem a diversidade estética, temática e cultural presente nas literaturas de países hispânicos, privilegiando abordagens críticas que evidenciam diálogos entre tradição e ruptura, entre local e global, entre identidade e diferença.

No capítulo “Ideologema romanesco e fantástico latino-americano: breves reflexões”, Ana Lúcia Trevisan realiza um movimento de discussão sobre a literatura fantástica latino-americana a partir do conceito que se apresenta em seu título: o ideologema romanesco. Investigando as escritas do mexicano Carlos Fuentes e da argentina Mariana Enríquez, Trevisan descortina as nuances do insólito como dispositivo crítico tensionador de questões históricas, sociais e culturais em nosso continente.

Já no capítulo “Territórios contestados: literatura contemporânea, (de)colonialidade e insólito em ‘O carrinho’, de Mariana Enríquez”, escrito por Caio Vitor Marques Miranda, encontra-se uma leitura sobre como a literatura se utiliza de temáticas como a violência racial, a colonialidade e a lógica do descarte para que o insólito surja na estrutura narrativa criada. Analisando o conto “O carrinho”, da escritora argentina Mariana Enríquez, Caio Miranda elabora reflexões sobre a literatura como território contestado e suas relações com os outros tópicos já mencionados.

Em “Plasticidade e deslocamento: linguagem e experiência em Águas aéreas (1991), de Néstor Perlongher”, Debora Duarte dos Santos reflete sobre a poética deste escritor argentino, que viveu seus últimos anos de vida em São Paulo, a partir da experimentação linguística e da transcendência. Dizimando fronteiras em sua escrita, Perlongher “rejeita a racionalidade convencional e conciliadora,” e “ [...] elabora uma poética que ultrapassa os limites da representação”.

Mas, e se o grotesco invadir a intimidade familiar? É o que discute o capítulo escrito por Fabianna Simão Bellizzi Carneiro: “Quando o grotesco atravessa a arte: leituras do conto ‘Caninos’, de Mónica Ojeda”. Fabianna apresenta em seu texto a ideia de que o grotesco quebra os padrões já conhecidos de representação e se torna uma linguagem capaz de condensar o que os padrões estéticos tradicionais não alcançam mensurar. Por meio da animalização, do trauma e da decomposição, presentes na obra da escritora equatoriana, a pesquisadora constroi sua análise a fim de evidenciar ao leitor como o horror também nos ajuda a refletir sobre os problemas sociais e sobre o trauma.

Já em “Corpos silenciados, vozes desenhadas: gênero e sexualidade no romance gráfico espanhol sob o franquismo”, Ivan Rodrigues Martin brinda o leitor com uma leitura sensível e analítica dos romances gráficos Estamos todas bien, de Ana Penyas, da trilogia Dentro, Fuera e Lejos, de Isabel Ruiz Ruiz e de El violeta, de Juan Sepúlveda Sanchis, Antonio Santos Mercero e Marina Cochet para evidenciar questões de gênero e sexualidade historicamente silenciadas durante o período da ditadura franquista na Espanha.

Em seguida, o leitor se vê diante do capítulo de Kelen Cristiane dos Santos e Mario Alberto Otero Mancini, intitulado “Superstição, território e violência narrativa: a construção da mulher perigosa em Doña Bárbara”. A partir do estudo do capítulo III da famosa obra do venezuelano Rómulo Gallegos, os autores discutem sobre a elaboração simbólica da alteridade feminina, estabelecendo diálogos entre a psicologia analítica e a crítica literária decolonial, em consonância com ideias propostas pela antropóloga argentina Rita Segato como a “pedagogia da crueldade”.

Na sequência, há o texto de Amanda Rosendo e de Raquel da Silva Ortega sobre a narrativa boliviana contemporânea, intitulado “Terror e cosmogonia andina em Para comerte mejor de Giovanna Rivero”. Nele, as autoras exploram quatro histórias a fim de elucidar as nuances do insólito em produções do terror alinhadas às concepções de mundo da região andina. De acordo com Ortega e XXXX, a escritora boliviana Giovanna Rivero reelabora as ideias do fantástico e do horror ocidental tradicionais para que elas se alinhem às experiências culturais latino-americanas.

Por fim, em “Representação e representatividade de mulheres na literatura e na música latino-americanas”, o autor e organizador deste e-book, Rodrigo de Freitas Faqueri Montanholi, apresenta um panorama de textos musicais e literários de autoria de mulheres latino-americanas do século XX e XXI. Discutindo sobre diferentes temáticas, como maternidade, estereótipos femininos e violências contra a mulher, os textos selecionados ressaltam a importância da escrita de mulheres para a arte latino-americana.

Dessa forma, como organizador e escritor, espero que esta publicação contribua para o aprofundamento dos estudos sobre essas literaturas por meio de novas pesquisas, de diálogos interdisciplinares e de leituras comprometidas com a complexidade do campo. Por isso, desejo que este e-book confirme a ideia de que as literaturas de língua espanhola são e serão um território sem fronteiras.

Boa leitura!

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